Sexta-feira, Abril 24, 2009

In a way, a fé é a forma mais forte de igualdade e democracia. Não diferencia pobres e ricos, iletrados ou doutorados. Muito simplesmente porque não depende nem de riquezas materiais nem tão pouco da razão. Nenhum raciocínio, por mais elaborado, pode provar ou negar Deus.

Quarta-feira, Março 18, 2009

Melancolia

Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.

Eugénio de Andrade

Terça-feira, Março 03, 2009

S'il te faut...

Tu n'as rien compris
S'il te faut des trains
Pour fuir vers l'aventure
Et de blancs navires
Qui puissent t'emmener
Chercher le soleil
À mettre dans tes yeux
Chercher des chansons
Que tu puisses chanter

Alors s'il te faut l'aurore
Pour croire au lendemain
Et des lendemains
Pour pouvoir espérer
Retrouver l'espoir
Qui t'a glissé des mains
Retrouver la main
Que ta main a quittée

Et alors s'il te faut des mots
Prononcés par des vieux
Pour justifier
Tous tes renoncements
Si la poésie pour toi
N'est plus qu'un jeu
Si toute ta vie
N'est qu'un vieillissement

Alors s'il te faut l'ennui
Pour te sembler profond
Et le bruit des villes
Pour saouler tes remords
Et puis des faiblesses
Pour te paraître bon
Et puis des colères
Pour te paraître fort
Alors alors
Tu n'as rien compris

Jacquel Brel

Como se não houvesse amanhã...

O tempo é uma obcessão grande.
É por isso que é sempre de uma agonia só que trago aquela bola de fogo pousando suave e imensa no horizonte. Todos os dias.

Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

Today....

Sinto-me assim.....

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

O peixe

(José Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro, in Obras Completas-Poesia 4)
Pede-se a uma criança: - Desenhe uma flor! Da-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala, onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo, o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: -Uma flor! As pessoas não acham parecidas essas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

ou... ohhh, mamã... peixe...peixe...

Agora




Apetece-me........

hummmm...




...rosas vermelhas...

... ou a sombra de uma laranjeira sob o calor...

Tudo isto me apetece...


Quarta-feira, Setembro 17, 2008

Escola

«Despertar noutro ser humano poderes e sonhos além dos seus; induzir nos outros um amor por aquilo que amamos; fazer do seu presente interior o seu futuro; eis uma tripla aventura como nenhuma outra.
(...) Uma sociedade como a do lucro desenfreado, que não honre os seus professores, é uma sociedade defeituosa.
(...) Nenhum meio mecânico, por mais expedito que seja, nenhum materialismo, ainda que triunfante, poderá erradicar esse alvorecer interior que experimentamos sempre que compreendemos um Mestre».

G. Steiner

Terça-feira, Março 04, 2008

HÁ DIAS EM QUE ME APETECE MUDAR O MUNDO

Quando era mais novinha, acreditava que, se as pessoas falassem umas com as outras, não haveria nunca razões para não se entenderem. Era isto que a minha mãe me dizia: A falar é que a gente se entende!, encorajando-me a extravasar o que me ia na alma, a verbalizar, mas nunca a falar em vão! A palavra reveste-se de algo de sagrado e mítico - não pode ser desperdiçada assim por dar cá aquela palha. Se vamos falar, que valha a pena e, se vamos discutir, que seja para procurar a verdade das coisas.
E durante muito tempo eu acreditei em tudo isto, mantendo uma fé inabalável no poder curativo da palavra. Chegava até a dar por mim de boca aberta, perplexa perante o ecrã da televisão, quando o senhor de fato que nos mostrava o mundo nos comunicava que, algures num continente, havia povos que não encontravam o caminho entre eles, não se conseguiam entender. E de tal forma era a minha incredulidade que tinha em mim a certeza de que se eu fosse lá fazer a ponte entre as duas partes, se eu expusesse e organizasse as ideias e reivindicações de cada um, tudo seria estupidamente simples e todos deixariam escapar um Ah! de grande admiração, só comparável ao velhinho Eureka!.
O que eu só vim a descobrir mais tarde foi que as pessoas não discutem para encontrar a verdade, que os argumentos que escolhem estão, pelo contrário, ao seu próprio serviço, do seu egoísmo e da sua inflexível visão de mundo. Que a palavra é maltratada constantemente em discursos ocos, diálogos que não passam do solilóquios e artifícios publicitários mais ou menos duvidosos. Um dia tropecei numa daquelas frases: Une cruelle aberration fait croire aux hommes que le language est né pour faciliter leurs relations mutuelles (Michel Leiris). Aberração! Senti em mim uma desilusão incomensurável que me desfez por dentro e me abriu em carne viva. Todas as vociferações do mundo me pareceram ruído. Gralhas!! E, então, calei-me!
Acredito, ainda, que as palavras detêm um enorme poder sagrado e mágico. E reconheço o perigo desse poder! Por isso mesmo é que não poderia mais usá-las a não ser com parcimónia, com pezinhos de lã, não vá perder-se o caminho até à palavra. A única. A verdadeira.

Mas, às vezes, sinto saudades da menina pequenina que achava que podia curar todas as feridas. E, então, só às vezes, apetece-me mudar o mundo. E começo a falar.

(texto escrito e publicado em Outubro de 2005)